Um novo guia técnico lançado pelo Centro de Pesquisa em Genômica Aplicada às Mudanças Climáticas (GCCRC), uma unidade mista Embrapa-Unicamp, sistematiza, organiza e explica de forma simplificada, o processo de transformação genética de milho. A publicação Transformação de milho via Agrobacterium: um guia para novos laboratórios tem como objetivo apoiar a formação de equipes e a estruturação de laboratórios nacionais que desejam avançar com técnicas de transgenia e edição gênica de milho.
O milho (Zea mays) é o cereal mais cultivado no mundo e desempenha um papel central tanto na alimentação humana quanto animal. Além disso, é considerada uma planta modelo para estudos genéticos e biotecnológicos.
Os primeiros experimentos de transformação genética da espécie remontam à década de 1960, mas os avanços mais consistentes ocorreram a partir dos anos 2000, sobretudo com a consolidação da técnica mediada pela bactéria Agrobacterium tumefaciens. Este método possibilitou a inserção de trechos de DNA no genoma da planta por meio da “infecção” não patogênica da célula vegetal, o que acelerou significativamente a engenharia genética vegetal. O método passou a ser amplamente adotado por gerar eventos de inserção mais estáveis e de melhor qualidade, além de não exigir equipamentos sofisticados.
O guia descreve detalhadamente um protocolo aplicado à linhagem de milho B104, amplamente utilizado como modelo em estudos de transformação genética. Ao longo de 46 páginas, a publicação apresenta desde a produção de embriões imaturos e a preparação da bactéria até as etapas de infecção, seleção, regeneração e aclimatização das plantas transformadas. O material também traz listas de reagentes, meios de cultura, equipamentos necessários e pontos críticos do processo que influenciam diretamente a eficiência da transformação.
“Existem muitos protocolos de transformação genética de milho publicados na literatura, porém, um dos principais desafios é a reprodução desses protocolos em novos laboratórios, obtendo níveis de eficiência semelhantes aos relatados”, aponta Maísa Siqueira, pesquisadora de pós-doutorado e autora do guia.
Desde 2018, o GCCRC desenvolve pesquisas em transformação genética de milho, com foco na identificação e validação de genes associados à tolerância a estresses intensificados pelas mudanças climáticas. “Em nosso centro de pesquisa, foram necessários mais de três anos de ajustes e padronizações até a obtenção de resultados consistentes e satisfatórios”, complementa Siqueira.
“A proposta do guia é reduzir barreiras, compartilhando a experiência acumulada pelo GCCRC e contribuindo para a ampliação do uso da ferramenta em laboratórios acadêmicos e, potencialmente, no setor produtivo”, explica Juliana Yassitepe, da Embrapa Agricultura Digital e do GCCRC, autora do estudo.
“Apesar de ser um guia voltado à transformação genética de milho, ele aborda vários aspectos comuns à transformação genética via Agrobacterium de qualquer cultura”, ressalta Siqueira. “Para culturas que ainda não possuem protocolos de transformação genética via Agrobacterium bem estabelecidos, este guia pode servir como base para o desenvolvimento e a adaptação de novos protocolos; já para espécies com protocolos bem estabelecidos, pode fornecer orientações pontuais que auxiliem na reprodução do protocolo e na obtenção de eficiências de transformação satisfatórias”, afirma a pós-doutoranda.
“A expectativa é que a difusão desse conhecimento acelere o desenvolvimento de novas variedades de milho mais adaptadas a cenários de estresse climático, fortalecendo a pesquisa nacional em biotecnologia vegetal e ampliando a capacidade de inovação no melhoramento genético da cultura”, finaliza Yassitepe.


