Jonas Hipólito, presidente da Biotrop e integrante da liderança do BioFirst Group, demonstrou confiança na adoção de insumos biológicos na Europa, apesar das restrições regulatórias. Ele falou com exclusividade durante o primeiro BioSolutions Forum, que reuniu lideranças do agro brasileiro e europeu em Bruxelas, no dia 10 de fevereiro de 2026.
O fórum, realizado a poucos passos do Parlamento Europeu, na sede da Sofina, conectou duas realidades agrícolas distintas: a adoção em larga escala de biológicos no Brasil, impulsionada pelo controle de custos e pela performance agronômica, e a transição europeia orientada por metas de sustentabilidade, mas limitada pela escassez de soluções disponíveis e por processos regulatórios prolongados.
Conectando a escala brasileira à exigência europeia por sustentabilidade
“O evento foi preparado com muito cuidado e conseguimos reunir líderes do agronegócio europeu e brasileiro para um dia inteiro de troca de informações”, afirmou Hipólito. “Trouxemos a realidade do uso em larga escala de biológicos no Brasil, onde o principal fator de decisão é o controle de custos ou o aumento da rentabilidade, além da entrega de desempenho agronômico que já não era possível alcançar apenas com as soluções disponíveis.”
O contraste com a agricultura europeia ficou evidente. “O público europeu enfrenta enorme pressão para adotar tecnologias sustentáveis, mas encontra escassez de soluções no mercado, e as que existem ainda não trazem esse componente claro de rentabilidade”, explicou.
Usinas brasileiras presentes no evento, como Atvos, Coruripe, Cocal e Pedra Agroindustrial, apresentaram estudos de caso mostrando adoção de biológicos entre 35% e 100% das áreas cultivadas, principalmente por razões econômicas, e não por imposição regulatória.
Estrutura comercial fortalece expansão na Europa
“Todos estavam muito abertos ao debate, com muitas perguntas e contribuições”, destacou Hipólito. “Clientes europeus também apresentaram iniciativas em distribuição e na cadeia de transformação agrícola aqui na Europa. O evento cumpriu seu objetivo, que era conectar esses dois mundos e apresentar nossa empresa, que agora se posiciona de forma mais forte no continente.”
A estratégia de expansão da Biotrop vai além da participação em eventos. “Estamos muito confiantes de que BioWorks e EuroBiotrop, nossas marcas na Europa, terão sucesso relevante”, afirmou. “Já contamos com 16 profissionais no continente, com equipes comerciais na França, Itália, Espanha, Portugal, Holanda, Bélgica e Turquia. Temos equipe regulatória para obter registros e equipe de marketing. Estamos estruturados para realmente ter sucesso na Europa, entregando controle, produtos e tecnologia que os produtores europeus merecem.”
Regulação ainda é o principal gargalo
Ao ser questionado sobre os desafios regulatórios, Hipólito reconheceu que esse é um ponto crítico. “A questão regulatória é, de fato, um calcanhar de Aquiles. A agricultura europeia enfrenta resistência de pragas, doenças e desafios técnicos que exigem novas soluções. O produtor quer adotar tecnologia. Todos os elementos estão presentes. O que falta é um ambiente regulatório que permita que a tecnologia chegue ao campo de forma mais rápida e segura.”
Ele destacou três razões para manter o otimismo. A primeira é a consolidação da empresa na Europa. “Hoje somos uma empresa europeia, não apenas belga. Temos uma base robusta de pesquisa construída no Brasil e apoio muito forte aqui no continente.”
Transição para biológicos é vista como inevitável
A segunda razão é histórica. “Estamos do lado certo da história. É uma força imparável. Pode levar mais ou menos tempo, mas a Europa vai se adaptar. Vai modernizar sua visão sobre os biológicos, e estamos preparados para isso.”
A terceira está ligada à cultura organizacional. “Trata-se de pessoas e mentalidade. A Biotrop tem essa cultura, essa disposição para agir, baseada em trabalho e determinação. Existem barreiras, mas acreditamos que com talento, consistência e esforço, esse movimento não tem como ser interrompido.”
Mercados diferentes exigem propostas de valor distintas
O fórum também evidenciou diferenças estruturais entre Brasil e Europa. No Brasil, produtores priorizam retorno econômico e desempenho agronômico, avaliando biológicos com base em análises rigorosas de custo-benefício em mercados altamente competitivos.
Na Europa, a adoção é impulsionada principalmente por restrições à química sintética, exigências de consumidores por sustentabilidade e políticas públicas favoráveis aos biológicos, o que gera demanda que, muitas vezes, supera a oferta de soluções economicamente viáveis.
O desafio da Biotrop é traduzir sua experiência operacional brasileira, onde os biológicos competem economicamente com insumos convencionais, para o contexto europeu, marcado por maior complexidade regulatória, propriedades menores e sistemas produtivos distintos, conciliando rentabilidade e sustentabilidade.


